Página Inicial Os Escritores Lista de Crônicas + Recente + Antiga



O cara dos livros

Luis Fernando Verissimo

Espaços. É importante numa relação, espaços. Mas ele soube que o amor ia acabar quando ela perguntou:

- Cê não acha que a gente precisa de uma cama maior?

Nunca mais dormir abraçados. Nunca mais brincar de quem tinha os pés mais frios no inverso. Nunca mais. A cama maior foi o começo da separação. Depois veio a conversa de um respeitar o espaço do outro, do convívio racional de dois adultos, etc. Enfim, da retirada negociada do amor. Mas a separação começou com a cama maior. Nunca mais as brigas pelo cobertor estreito que acabavam em transa apaixonada. Nunca mais.

flor

Quando finalmente se separaram mesmo, surgiu outro problema de espaço. O apartamento era dela, ele teve que se mudar. E no pequeno apartamento que alugou não tinha lugar para os seus livros. Negociaram isto como tinham negociado o resto. Como dois adultos. Os livros ficariam no apartamento dela até que ele conseguisse um apartamento maior, ou um espaço para colocá-los. Ele poderia visitar o apartamento sempre que precisasse consultar seus livros. Era só avisar. Se ela não estivesse em casa, deixaria a chave com o seu Zélio, o porteiro. Sem problemas.

flor

Um dia ele telefonou, disse que iria consultar um dos seus livros na manhã seguinte, e ela disse “Ahn...”. Era a primeira vez que hesitava. Disse que na manhã seguinte não dava. Por quê?

- Bom, se você precisa saber, meu namorado vem jantar aqui esta noite.

Ele ficou em silêncio. Depois disse:

- E daí?

- Daí que se tudo der certo, espero que ele esteja aqui amanhã de manhã.

Outro silêncio. Depois:

- Tá bom.

- Se você quiser vir de tarde, tudo bem.

- Tem certeza que ele não vai ficar pra almoçar? Se gostar da comida?

Ela desligou.

flor

Ele passou a telefonar todos os dias. Às vezes ela permitia a consulta aos livros, às vezes dizia que não dava. Uma vez se encontraram no apartamento e ele não se conteve. Pediu:

- Só me diz uma coisa. É sempre o mesmo cara que dorme aqui, ou...

- Não tenho que te dar satisfações.

- Curiosidade mórbida. Só isso.

- Sei. E outra coisa. Que história é essa de querer consultar seus livros todos os dias?

- Estou escrevendo um artigo.

- Pois então pega os livros que você precisa e leva pra casa.

- Não posso. Não sei que livros eu vou precisar consultar de um dia para outro.

- Mas sobre o que é esse diabo de artigo que você precisa consultar tantos livros?

- Generalidades!

flor

Um dia ele foi mais tarde do que o combinado. Pegou a chave com o seu Zélio e, em vez de ir direto para a sua biblioteca, ficou perambulando pelo apartamento vazio, sem saber bem o que procurava. Entrou no quarto de dormir. Suspirou, olhando a cama larga. Na mesa de cabeceira, no lado onde ele dormia tinha uma pilha de revistas. Todas sobre carros. Fórmula 1. Novos lançamentos. Rali. Ela não se interessava por carros. As revistas eram do namorado. A coisa devia ser séria, pensou. Namorados passageiros não trazem material de leitura. Caso não lê na cama. Nem quadrinhos.

flor

Ele estava na biblioteca, não consultando nada, porque o tal artigo não existia, só olhando para as lombadas com tristeza, quando ouviu o ruído da porta do apartamento sendo aberta. Era o namorado. Mais moço do que ele. Mais moço do que ela. Se apresentaram, sem jeito.

- Eu sou o ...

- Eu sei. O cara dos livros.

- Pois é. Era para vir mais cedo, mas... Seu nome é?

- Paulo. Paulão.

- Ela já lhe deu a chave.

- Pois é...

flor

Quando telefonou para ela aquela noite, ele disse:

- Aqui é o cara dos livros.

- Já sei que vocês se encontraram.

- Olha aqui. Não sei se eu estou gostando muito disso não.

- Disso o quê?

- Os meus livros nesse ambiente.

- O quê?!

- Não. Isso aí não é ambiente para os meus livros. Quem sabe do que esse Paulão é capaz?

- E o que que ele vai fazer? Molestar os seus livros?

- Sei não, sei não.

Ela deu um prazo de três dias para ele retirar todos os seus livros do apartamento. Ele disse, “Ótimo!”, pois não conseguiria mais dormir tranquilo pensando nos seus livros sozinhos no mesmo apartamento com o Paulão, ainda mais que ele tinha a chave e podia entrar a qualquer hora. E perguntou:

- E o espaço? Vocês já resolveram a questão do espaço? Olha que espaço é importante numa relação.

flor

Querendo ser sarcástico, mas se engasgando. Nunca mais acordarem cara a cara, com os narizes a centímetros um do outro. Nunca mais sincronizarem seus movimentos na cama para não haver acidentes. Nunca mais a falta de espaço para se separarem. Nunca mais.


Domingo, 23 de novembro de 2003.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.